História da Biblioteca Comunitária Jardim Literário

As bibliotecas que integram a Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias (RNBC) possuem trajetórias de muitos desafios e conquistas. Buscando...

As bibliotecas que integram a Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias (RNBC) possuem trajetórias de muitos desafios e conquistas. Buscando sistematizar essas histórias, cada Rede Local indicou um integrante para fazer parte da equipe Entre Redes, um grupo de trabalho da RNBC. Foi construído coletivamente estratégias para a sistematização das histórias das bibliotecas comunitárias. Garantindo a escuta ativa e muita sensibilidade para colocar no papel, de uma forma bem poética, todos os depoimentos compartilhados nos Círculos de Memórias. Joyce Mariana, mediadora de leitura da Biblioteca Comunitária Jardim Literário traz a narrativa da história escrita por Emiliana Nunes, sistematizadora da Rede de Leitura Jangada Literária e mediadora de leitura na Biblioteca Comunitária Literateca.

✨ Todas as histórias podem ser encontradas no Site da RNBC.


Amanheceu e eu sentia o cheiro de café que vinha da cozinha. Escuto baixinho uma música melancólica, e logo em seguida a voz forte e grave de um locutor que sai de uma caixa pequena. É como se sentisse a presença da minha mãe, nas vezes em que ficava com o rádio sintonizado nos programas em que as músicas eram carregadas de letras de saudades.

Levanto-me preguiçosamente da cama, ainda com os olhos querendo fechar. Olho para a cozinha e tudo está calmo, lembranças pairam no ar. Vou ao banheiro e sinto meu corpo se contrair quando a água gelada corre por ele. Hoje será um dia festivo, está acontecendo na cidade uma exposição cultural com história de lugares e pessoas que foram e são considerados importantes.

Ah! Se todos soubessem da minha mãe! Da sua luta, da sua paixão e das suas histórias! Lembro-me que quando bem pequena eu a ouvia conversar com outras pessoas sobre como havia surgido o lugar onde morávamos. Gostava de saber das aventuras vividas até chegar ali e como se tornara nosso lar.

Podia ouvi-la como naquela manhã de quinta-feira, na qual, aos goles de café, ela falava com sua comadre e uma vizinha sobre a história do nosso bairro: “Jardim Iracema é um lugar de resistência, já existe há 50 anos, vocês sabiam disso? Eu e minha família fomos despejadas do bairro onde morávamos. O prefeito inventou de fazer um bairro chique e nós, que somos pobres, ficamos sem ter onde ficar. Saímos em busca de um lugar para nos aconchegar e outras famílias também foram. Chegamos aqui e aqui ficamos”. 

O nome é de uma criatividade só. Conta-se que a índia Iracema passeava pelo bairro e seguia para o rio Ceará para tomar banho. Então, colocamos o nome em homenagem a ela e ao seu jardim. 

Minha mãe ainda continuava dizendo que uma instituição, conhecida por Fundo Cristão, se aproximara do bairro e das famílias. Em conjunto com as lideranças comunitárias, que eram fortes e participativas, abriu centros comunitários, dando início a organizações apoiadas pelo Fundo.

Mesmo com a violência, que nos assombra e causa medo, medo de ir à esquina por ser território do outro, não deixamos de conhecer pessoas e instituições que trabalham acreditando na força da educação, da arte, da cultura, dos sonhos. Já perdemos jovens por conta de envolvimento em gangues, o que é lastimável. Mas não diminui os jovens e as crianças daqui, que continuam tendo nosso apoio.

Chego ao trabalho e sou recepcionada por um monte de abraços e de pessoas que me chamam de tia e me questionam por que havia demorado tanto. Sorrio. Quando abro a sala, lá está: um monte de portas para aventuras, poesias, receitas culinárias, romances, suspenses… 

Herdei da minha mãe o gosto pelas coisas que saem do coração, da mente, e se deixam desenhar no papel. A biblioteca é o lugar central das lembranças que tenho da minha infância e de tantos momentos. Enquanto passo a mão pelos livros sinto os sussurros das demais crianças que me perguntam: “Onde está o livro que fala da história de uma menina chamada Narizinho…?!”

É hora do almoço e saboreio um bom pirão com arroz, ovo e um peixe de dar água na boca. Daí a pouco chegam os jovens para um bate-papo. Querem ser voluntários e, para isso, pediram para conhecer melhor a biblioteca.

Início a nossa roda de conversa, o ambiente está uma agitação, risadas, leitura do trecho de um livro, no canto uma jovem quieta, um casal que se olha com paixão. Convido-os a se sentar no tapete. Todos ficam mudos, como se estivessem envergonhados. Então, de repente, uma jovem me pergunta: “Como nasceu este lugar?”

Começo a contar-lhes a história: nascemos em 2013, após o apoio do Instituto C&A. Antes era apenas um espaço de leitura, ambiente muito pequeno, livros adquiridos por doações, sem funcionamento rotineiro. Havia reforço escolar aqui na instituição, mas logo se percebeu a necessidade de as crianças, atendidas pelo reforço escolar, terem mais contato com a leitura.

O nome – Jardim Literário – foi uma escolha das pessoas que frequentavam a biblioteca, por ter relação com o nome do bairro. Nessa hora, uma voz baixinha disse: “Aposto que deve ter tido uma festança de inauguração”. Na verdade não houve uma inauguração, as pessoas foram contando umas para as outras, e logo começou a aparecer mais gente querendo fazer empréstimo de livros e participar das atividades. 

Porém, houve uma reinauguração logo após a mudança do espaço, que ficou mais amplo. Antes, a biblioteca era nos fundos da instituição. Hoje, se localiza na entrada. Mas, como tudo na vida, encontramos mais dificuldades. Não tínhamos estantes, livros suficientes, equipamentos, organização do acervo, e não havia alguém responsável somente pela biblioteca.

Notei que a menina quieta sorria, como se estivesse se lembrando de algo. Fiquei observando o que fazia, ela me olhava docemente, e estranhamente me confortava. Concentrei-me na conversa e voltei a falar. Hoje temos rotineiramente o empréstimo de livros e, semanalmente, uma mediação de leitura; promovemos ainda o Cine Pipoca, para crianças e jovens; oficinas de produção de texto e de poesia; contação de história e, em alguns dias de mediação de leitura, as próprias crianças apresentam teatro, baseado na história que foi mediada ou em um livro do qual tenham gostado. Como aqui há jogos de tabuleiro, constantemente as pessoas os utilizam.

Demos uma pausa para o lanche: bolo de chocolate com suco de maracujá. “Uma delícia!”, exclamou um dos jovens (quase não deixou pedaço de bolo intacto). Olhava para a garota que serenamente comia. Achei estranho o fato de parecer que ninguém notava a sua presença, tranquilamente andava como se o mundo todo fosse dela.

Voltamos ao círculo e, mais íntimos, engatamos uma conversa leve. Perguntaram-me como a comunidade via a biblioteca e o que ela oferecia à comunidade. Pergunta importante, pensei. Então respondi: já promovemos cafés literários e conversa com escritores (o autor de livros infantojuvenis André Neves veio aqui, participou da roda de conversa para a comunidade). E, em conjunto com outras bibliotecas do bairro, como o “Quero Mais Leitura”, um sarau literário. Em parceria com demais instituições que têm biblioteca, promovemos nas escolas do bairro a “Kombi Literária”, atividade itinerante de contação de histórias na qual levamos uma pequena parte do acervo para exposição e leitura.

Uma jovem olhou para mim e para os colegas e, bem certa do que ia dizer, soltou: “Sem dúvida que é um espaço cultural para a comunidade. Proporciona aos moradores uma característica diferente no processo de desenvolvimento, com ambiente agradável no qual as pessoas se sentem acolhidas. Pelo menos eu me sinto assim”. Todos olharam para ela com espanto, e aí começou a chuva de depoimentos que encheu meu coração de alegria.

– A comunidade não conseguiria mais viver sem a biblioteca. As pessoas têm este espaço como um lugar que faz parte da vida. Haveria um vazio, o bairro seria sem vida, as crianças estariam mais ociosas e não ocorreriam mudanças na vida das pessoas.

Karen, a jovem apaixonada, soltou aos risinhos que a sua vivência contribuiu para melhorar a leitura. Era muito tímida, o que hoje já não é um grande problema. De repente um dos depoimentos fez meu coração pulsar: “Meu pai falou que este lugar sempre foi acolhedor, por conta da sua mãe. A tia Mariana, que cuidava tão bem daqui, como a senhora, e deixava a biblioteca mais aconchegante, por ser assim tão próxima das pessoas”. 

Sim! Minha mãe era mãe de muitos, ouvia com carinho, brigava quando preciso e zelosa que dava gosto.

Muito bom ouvir o que têm a dizer, isso aquece meu coração de motivações. Lembro-me que certa vez cheguei a pensar que por aqui ser uma região periférica, e com a falta da internet, seria um espaço sem leitores, o que na verdade não aconteceu. As pessoas gostam de ler, buscam novidades, não somente crianças e jovens, mas adultos e idosos. Acredito que conhecem a Thaís. Ela me ajudou muito aqui, era voluntária, escreveu uma denúncia social sobre a mulher em forma de poesia marginal e ganhou um prêmio estadual por conta da poesia.

Lembro-me de minha mãe me contar que nem sempre foi uma pessoa que gostava de livros, nada do jeito como ficou depois – apaixonada, virada. Ela me dizia que tinha se tornado uma pessoa diferente. Antes, a leitura era obrigatória, por conta da forma como sempre a vivenciou. Lia apenas pela obrigação dos trabalhos da escola e, posteriormente, da faculdade. Apesar de haver livros em casa, não demonstrava tanto interesse na leitura. Mas ao começar a trabalhar como mediadora de leitura se redescobriu, percebeu-se mais sensível na maneira de enxergar a vida.

Falei para os ávidos leitores que a história da nossa conquista havia sido árdua, coletiva, e que ainda hoje é assim. Contei que todos que participam militam na Rede local, ações de incidência em políticas públicas em favor da garantia da leitura como direito humano. A Rede se chama Jangada Literária, e tudo foi possível somente com o apoio do Instituto C&A, a partir do Programa Prazer em Ler. A parceria nos possibilitou qualificar e ampliar o acervo, garantir uma pessoa de forma ativa em todas as atividades – empréstimos do acervo, mediação de leitura e articulação com os movimentos sociais, sempre com a missão de promover a leitura como direito humano.

Bateram à porta e todos se viraram. Um dos funcionários dizendo que já estavam indo embora e precisava fechar a instituição. As pessoas se levantaram, deram-me um abraço e disseram que voltariam para ajudar a colar fitinhas nos livros, mediar leitura e lutar em favor das bibliotecas. No entanto, notei que a menina quieta já tinha ido, talvez na correria do abraço acabou saindo. Uma pena, queria abraçá-la em particular.

Voltei para casa, cansada, sonhadora, esperançosa e feliz. Preparei uma janta gostosinha, me acomodei em meu sofá, comi tudo ao som de uma música relaxante. Peguei um livro, li algumas páginas e sonhei leve. No sonho, a garota quieta me beijava no rosto e sorria, me dava um forte abraço e dizia que tinha me esperado dormir para me abraçar. 

Ela me ninava e seus olhos eram poesias. E sussurrou em meus ouvidos, “minha pequena poesia”. Tomei um susto e acordei. Olhei para os cantos e vi um retrato, minha mãe na biblioteca rodeada de crianças e comigo nos braços. Eu era sua pequena poesia.

Autora:

Emiliana Nunes, estudante de Serviço Social, mediadora de leitura há seis anos na Biblioteca Comunitária Literateca, da Jangada Literária, escritora e administradora do Blog Azul Clichê.





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